sexta-feira, 9 de abril de 2021

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Após o Horizonte Capítulo IV - Calor

Anteriormente...

Alice está de férias em Porto de Galinhas, mas tudo mudou quando durante um passeio na praia, ela conhece uma garota estranha que fala coisas bem esquisitas...
Sem nem saber o porquê, ela a acompanha para o alto de algumas pedras no extremo da praia, mas por um descuido, bateu o rosto com força ao escalar, rolou e caiu no mar... Afundando e desmaiando de dor, Alice ainda pensou em como era triste morrer sozinha e longe de seus pais...




Após o Horizonte
Capítulo  IV - Calor

Escuro... tudo escuro... não sentia nenhuma dor... estava tudo em silêncio... mas... havia um calor que me envolvia... um calor gostoso... uma sensação quente e agradável... sem dor... apenas um toque macio, delicado e quente... que delícia... eu queria ficar aqui para sempre... sentindo este aconchego... estou protegida... sem dor... nada importava, só aquele calor... mas de repente, ouvi uma voz:

- Acorde!

Mas eu não estava dormindo... só estava... feliz...

- Acorde! - insistiu a voz - Acorde, acorde!

Mas por quê?

- Acorde!

Mas...

- Acorde!

Nã...

- O que? O que houve? - abri os olhos de repente, sem me lembrar onde estava ou porque estava lá... e ao olhar para o lado, o rosto branco com cabelos vermelhos e olhos acinzentados me trouxeram de volta a realidade.

- Você... Brigit... o que houve? - balbuciei, enquanto sentia um formigamento muito estranho no corpo inteiro... não conseguia me mexer... estava deitada na areia e aquela linda garota estava ao meu lado, me abraçando... sentia o peso de sua perna e braço em cima de mim... mas não conseguia me mexer... estava escuro... a noite havia chegado... mas o que tinha acontecido?

- Finalmente acordou - comentou ela com impaciência. Apesar de ouvir esta frase, não estava entendendo nada... e ao direcionar os olhos para baixo, a coisa toda ficou mais bizarra ainda.

- Por que... estou sem roupa? Por que... você está sem roupa? Por que... está me abraçando? Por que... não posso me mexer? - questionei, agora assustada. Eu tinha desmaiado? Ela estava abusando de mim? Eu tinha me machucado feio? Minha cabeça estava totalmente confusa.

- O que você acha? Após cair das pedras igual a uma idiota, tive que me jogar na água para te salvar... quando finalmente consegui te tirar do mar, nossas roupas estavam encharcadas... precisei tirar para secar, estão ali na areia... aí com você desmaiada e tremendo, precisei te abraçar para esquentar seu corpo, porque já estava escurecendo. Não havia nada e nem ninguém por aqui, como eu ia te carregar ou buscar ajuda? Como você me deu trabalho - reclamou, se apertando mais ainda contra meu corpo.

Repentinamente me lembrei... que escalei as pedras e caí... tinha certeza que ia morrer, mas fui salva...

- Obrigada, você me salvou... mas por que não consigo me mexer?! Machuquei minha coluna?! - perguntei preocupada.

- Fique quieta um pouco - foi a resposta.

- Por quê?

- Cale a boca por um minuto, está tirando minha concentração... depois falamos - foi a resposta impaciente.

Obedeci e fiquei quieta, mas não entendi nada... só pude notar que aquela garota estranha continuava grudada no meu corpo, e seu belo corpo era tão quente, que sentia-me em uma sauna. Estava suando, quase tendo a pele queimada... mas como ela podia emanar tanto calor? Meu raciocínio estava nublado, pois aquilo era algo tão... sublime... que não queria que terminasse, queria sentir aquele calor para sempre...

Mas terminou... alguns minutos depois, Brigit me soltou de seu abraço e sentou-se na areia ao meu lado... de costas para mim, então só via seu cabelo longo e vermelho quase chegando no chão. Aquele formigamento no corpo havia passado e comecei a mexer lentamente meus dedos, as mãos, a cabeça... e depois de alguns segundos, dei um impulso e sentei, apenas para começar a tremer de frio.

- Que frio! Mas como não sentia nada até agora? Você... - disse olhando para ela, que voltou a me ignorar. - Por favor, continue perto de mim... seu calor estava tão... gostoso - pedi, sentando ao lado dela enquanto tremia bastante. - Por... favor...

Brigit hesitou por alguns segundos, mas deve ter ficado com pena da minha situação, pois esticou o braço por cima e me puxou junto ao corpo dela, me abraçando carinhosamente. E voltei a sentir aquele calor agradável e gostoso, com aquela pele macia e sedosa...

- Obrigada. Como você pode ser tão... quente? - perguntei impressionada, apenas para não ter qualquer resposta.

- Por que estava me abraçando? Como conseguiu me salvar? Por que queria me levar para o alto das pedras? Por que está me ignorando? Eu sofri um acidente, não foi minha culpa - perguntei sem receber qualquer explicação, pois tudo que tinha dela era aquele calor inexplicável. Mas de repente, uma lembrança muito estranha me fez falar algo que finalmente lhe forçou uma reação.

- Espera aí... me lembro de bater a boca na pedra, do gosto e da grande quantidade de sangue... dos meus braços e pernas se arrebentando... por que não sinto qualquer dor? Parece que só cai na água... o que aconteceu afinal?

- Não aconteceu nada, cale a boca se não vou embora e te deixo aqui sozinha.

A resposta foi em um tom tão ríspido, que decidi parar de perguntar.

- Tem razão, desculpe... você me salvou e nem agradeci. Obrigada - falei ao me virar para a abraçar em seguida... e ao alisar suas costas delicadamente, senti seu corpo tremer e retesar de uma forma bem engraçada.

- Pare... de me tocar! - disse de forma hesitante, mas sem me empurrar.

- Desculpe, foi só um agradecimento... mas quando sentei lá no banco, você só me olhou quando encostei no seu braço. Te incomoda ser tocada? Desculpe mesmo - falei envergonhada.

- Não me incomoda, muito pelo contrário... mas para te salvar, precisei te tocar e te sentir por horas e isso nos vinculou... se eu sentir você me tocando... sentir seu corpo se oferecendo voluntariamente... eu... eu posso perder o controle... faz muito, muito tempo que não sou tocada... não saberei quando devo parar.

Este comentário foi bem estranho... bom, na verdade ela É estranha... mas será que essa doida quis dizer que gostou do meu toque e não sabe o que pode acontecer? Se for isso é uma indireta que a deixo com tesão... será? E ela me abraçou e me esquentou por horas? Como assim isso nos vinculou? E por que eu estava pensando nisso? Só por que estávamos sozinhas, peladas, abraçadas e sua pele é delicada, macia e quente pra caramba? Creio que não deveria levar essa história adiante, mas só havia uma forma de saber...

- Tá bom, vou ficar quietinha, aproveitando sua companhia - disse, repousando meu rosto em cima dos pequenos e delicados seios dela. Que sensação excitante era sentir aquela pele macia e quente... mas foi mais gostoso ainda, notar que ela tremeu e suspirou.

- Brigit... sua pele é uma delícia, precisa me dizer qual creme hidratante você usa... a minha não chega nem perto, olha só - comentei enquanto passava a ponta dos dedos no seu braço, apenas para sentir seus tremores de novo.

- Por favor... eu não vou aguentar... pare... enquanto ainda é possível - balbuciou ela, com a voz trêmula.

- Mas por quê? É óbvio que você gosta do meu toque, e é tão linda... por que está se reprimindo? - perguntei enquanto levantava a cabeça, olhando diretamente naqueles olhos tão diferentes.

- Já disse... pare agora... não quero lhe ferir... - falou, cada vez mais hesitante. Era incrível como nem ela parecia convencida do que falava, e minha cabeça estava em conflito se a obedecia (a contragosto) ou a provocava mais (que era o que realmente queria fazer).

- Mas se você não é tocada há tanto tempo assim, do que tem medo? - perguntei, tendo o cuidado de não me mexer.

- Não tenho medo por mim... só não quero lhe fazer mal após ter te salvado - foi a resposta bem mais tranquila agora.

Aparentemente, se não a tocasse de forma proposital e ficasse apenas encostada, ela mantinha a calma. Mas com qualquer mínimo toque, ela tremia, arfava e nem conseguia falar direiro... qual era o problema desta garota? Como eu podia me interessar e chegar perto de uma maluca deste calibre? Mas no fim, creio que a insana era eu, pois decidi ser totalmente sincera e direta:

- Brigit, desde que a vi naquele banco... não sei se foi sua beleza, sua concentração, seu cabelo... não consegui parar de pensar em você... eu voltei porque não parava de pensar... sei que parece loucura...

- Esqueça, é perfeitamente normal, fique tranquila - foi a resposta sem qualquer emoção.

E assim ela conseguiu me irritar de novo... essa figura se achava tão irresistível que era normal e óbvio meu interesse? Como eu podia estar me sentindo tão... atraída... por alguém tão arrogante? Será que era um castigo por desprezar tantas pessoas que gostaram de mim? Minha cabeça estava cada vez mais confusa e para não xingá-la, mudei de assunto:

- Só me explica o motivo para subir naquelas pedras

- Você pediu um exemplo prático e lá de cima é possível ver uma ilha que está a nordeste daqui. Você veria que ao elevar os olhos, nosso raio de visão aumentava... é o mesmo conceito se você elevar a própria consciência - foi a resposta sem emoção de novo.

- Então você eleva sua consciência para enxergar mais longe? É isso? - perguntei, feliz por receber atenção, mesmo com certa má vontade.

- Sim.

- Mas você me ignorou a maior parte do tempo, igual está fazendo agora... por que quis me mostrar isso? - perguntei sem entender realmente.

- Talvez... tenha gostado de conversar com alguém após tanto tempo... retornei após uma longa ausência e creio que ainda não estou equilibrada o suficiente para conviver com outras pessoas... e foi este desequilíbrio que permitiu que você me notasse - disse ela com um suspiro, me fazendo entender menos ainda... essa garota parecia falar por enigmas, mas insisti:

- Você quer dizer que retornou aqui para o Brasil? Você é da Europa e lá as pessoas não são tão invasivas e calorosas como aqui, né?

- Algo assim - foi a resposta seca novamente.

Ela mudava de humor e tom a cada frase e isso era bem estranho também. Mas por mais que ela parecesse meia perdida, sentia que podia ajudar aquela moça... e mesmo não sabendo como exatamente, iria tentar.

- Talvez você precise se abrir mais com as pessoas... quem sabe eu possa te ajudar? - perguntei, alisando seu rosto, apenas para sentir seu corpo todo tremer novamente.

- Não... faça isso... - pediu ela, arfando.

- Você quer que eu faça... você precisa, não é? Pode se soltar comigo, eu vou adorar - respondi sorrindo, enquanto alisava suas costas.

- Você... não compreende... o perigo - foi a resposta, com o corpo tremendo mais ainda.

- Entendi que você precisa se equilibrar para conviver bem com as pessoas... mas como vai fazer isso, se não confiar em alguém e não sentir essa mesma confiança? Você me salvou e eu confio que não vai me ferir... eu só quero... sentir você - falei, dando um beijo leve no queixo dela, o que aparentemente a fez mudar de idéia.

- Sim, é verdade... eu preciso sentir... me lembrar como é sentir... eu... quero sentir você... sua energia é... deliciosa...

As frases dela continuavam a não fazer sentido, mas... a cada palavra, a vontade de tocar, acariciar e beijar aquela pele, alva e quente, aumentava. Se Brigit precisava sentir alguém, esta mesma necessidade estava me empurrando direto em sua direção.

- Eu confio em você... - balbuciei, alisando aquela lindo rosto e me aproximando delicadamente de sua boca. Neste instante, seu corpo esquentou ainda mais, até parecia que ia me queimar, mas não parei... e quando nossos lábios finalmente se tocaram, tudo ficou muito, mas muito mais estranho.

Brigit colocou a mão em meu rosto e o segurou com delicadeza, retribuindo o beijo com aqueles lábios macios como seda... nunca em minha vida senti uma textura tão delicada e nunca imaginei que poderia sentir algo tão inexplicável com um simples toque nos lábios, pois no instante seguinte, meu corpo inteiro amoleceu e me senti caindo, sem qualquer resistência... estar em seus braços era como flutuar a deriva, a mercê de uma correnteza, sem controle ou chance de sair.

Mas não me importava, aquele beijo era tudo o que eu poderia querer... e foi ficando mais intenso... mais... mais... até que a língua dela invadiu minha boca, sendo recebida imediatamente pela minha, sedenta por aquele toque... então... explodiu... a ponto de eu não conseguir gritar mesmo tentando, e não conseguia mexer os braços apesar dos terríveis espasmos, tentava bater as pernas no chão com violência mas elas não obedeciam e o pior de tudo, não conseguia respirar.

Foi só quando Brigit soltou meus lábios que entendi, ao mesmo tempo em que tentava sem sucesso sugar o ar desesperadamente... ao ter minha língua tocada, o êxtase que senti foi tão intenso e violento, que nunca acreditaria ser possível... naquele único instante eu senti mais prazer do que já havia sentido em toda minha vida, mas de uma vez só, sem aviso ou possibilidade de entender...

E antes que pudesse pensar, respirar ou falar qualquer coisa o beijo recomeçou... e após alguns instantes, explodiu novamente... mas não foi prazeroso, foi sufocante... eu não podia respirar, me mexer, gritar ou evitar... até que ela se afastou e me encarou, no momento em que eu tentava respirar de novo.

E seus olhos... aqueles lindos olhos estavam diferentes... eles estavam vidrados em conjunto com um sorriso sádico nos cantos dos lábios... eu não podia acreditar, não, eu NÃO QUERIA acreditar, mas fiquei aterrorizada... eram como os olhos de um predador, que estava se deliciando com a impotência de sua presa, era o olhar de alguém que não pretendia me deixar escapar.

Mas eu não podia falar, nem evitar mais um beijo e outra explosão... e outra... e após vivenciar toda esta alucinante e violenta sensação nunca experimentada por quatro vezes, eu parei de sentir meu corpo. Parecia que eu caía sem parar, como em um sonho... minha visão começou a escurecer, nada mais fazia sentido...

E a pior parte de todas, foi perceber nos meus últimos momentos, que independente de sua real intenção, Brigit não estava apenas me beijando... a inegável e horrível realidade era que esta mulher estava me matando, sem qualquer emoção ou hesitação, como uma serpente matando um roedor.

Então... tudo se apagou.