quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Minha Gatinha Lucy - Parte VII - Coleira [Conclusão]


Minha gatinha havia fugido de casa e a culpa me consumiu naquele domingo... eu que a levei ao Shopping, falei para entrar na loja e o pior, não a apoiei o necessário naquela noite... eu devia ter lhe dito que nada tinha mudado, que a amava, que só isso importava... devia ter ficado a noite todo falando no seu ouvido que a amava... mas fiquei sem ação, achei que podia falar no dia seguinte... e no dia seguinte, foi tarde demais.

Não sei quanto tempo chorei, olhando para o cantinho do sofá onde ela dormiu na primeira noite... fiquei imaginando se ela iria comer direitinho... se ela estava bem ou chorando também... só sei que foi muito tempo... até que, quando as lágrimas acabaram fui cambaleando até a cozinha pegar um pouco de água. E em cima da mesa de jantar, encontrei o meu alento, na forma de uma carta... uma carta que li tantas vezes, que decorei cada palavra...

"Querida Doutora,

Antes de mais nada, obrigada por tudo que você fez por mim nos últimos meses.
Quando te conheci, minha vida estava tão sem sentido, que não sei qual teria sido meu fim se não fosse por seu carinho e proteção.
Por favor, me perdoe por ter exposto você a um problema do meu passado... não foi justo e não conseguirei me perdoar por isso.
Mas pelo menos isso me mostrou que não adiantava fingir que meu passado não existia... por mais que eu tentasse acreditar, minha vida não começou após te conhecer (meu coração pensa assim).
Não posso mais esconder meus problemas não resolvidos, pois eles podem reaparecer e magoar as pessoas que eu amo (você principalmente).
Por isso tomei uma decisão... para conseguir me orgulhar da minha vida a ponto de poder te contar tudo, eu não posso deixar nada em aberto... preciso resolver meus problemas, encará-los... preciso parar de fugir e de ser covarde... preciso ser forte e decidida igual a Doutora... acho que é isso que mais admiro em você, sabia?
Eu preciso resolver três coisas que já deveria ter resolvido... para que você me admire e saiba que não sou mais (graças a você) a covarde que sempre fui. Estava tão cômodo ficar escondida na sua casa no papel de sua gatinha, deixando você fazer tudo... mas não quero ser um fardo para a Doutora, quero ser uma parceira, uma companheira, não um estorvo que só come e pede atenção.
Não se preocupe comigo, irei me cuidar, comer bem, ser forte e corajosa... e sabe por que vou fazer tudo isso?
Porque quando minha vida estiver resolvida, vou voltar para a minha dona (é assim que te vejo) de cabeça erguida, sabendo que ela vai se orgulhar de mim... deve demorar uns dias, vários dias, mas vou voltar para você...
Então por favor me espere... quando eu voltar te conto tudo, prometo... sem segredos ou mentiras... por favor, tente entender... não me odeie por isso, só quero ser digna da minha dona...
É isso... não vou contar tudo agora porque estou com medo que você acorde e tente me impedir... e se eu porventura ver seus olhos marejados ou ouvir sua voz triste, não vou conseguir ir...
Por favor, por favor, por favor me espere...
Eu te amo minha dona!

Lucy (a sua, só sua e sempre sua gatinha)"

E foi somente após ler esta carta umas cinco vezes, que meu coração se tranquilizou um pouco... claro que ainda ficaria preocupada e com saudades... mas ela voltaria pra mim... a esperança não tinha me abandonado, eu teria minha gatinha de volta um dia...

Mesmo assim, os próximos dias foram tristes e tediosos... em cada dia, uma marca no calendário para saber há quanto tempo ela tinha ido... em cada dia, uma preocupação sobre onde e como ela estava... em cada dia, um olhar de compaixão da Pri, que nunca veio falar o quanto me avisou sobre este relacionamento maluco...  bom, pelo menos ela tentava não piorar algo que já estava péssimo o suficiente... e ainda, cada detalhe ou local de minha casa era um motivo para sentir saudades de algo que ela fez ou falou... estava sendo muito difícil, mas eu iria esperar.

E passou um dia, dois, três, cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco, e a saudade apertava... e as preocupações aumentavam... e as noites não terminavam... e o cheiro dela ainda emanava dos meus travesseiros... e a esperança de seu retorno nascia a cada dia apenas para morrer ao fim dele... mas eu esperaria... sabia... não, sentia que ela ia voltar... vinte e seis dias, vinte e sete dias... e este em especial foi uma noite sem fim com choro e muita saudade...

Até que... no dia vinte e oito após a sua ida, um dia triste e tedioso como os outros vinte e sete antes dele, quando eu estava comendo uma bacia lotada de pipoca de micro-ondas como almoço (não tinha ânimo para cozinhar) aconteceu algo novo, neste dia tão igual a todos os outros, ouvi alguém batendo na minha porta. Não que significasse algo, pois às vezes algum vizinho chato vinha pedir alguma coisa. De extrema má vontade, deixei minhas pipocas no sofá e fui ver quem ousava atrapalhar a minha fossa. E ao abrir a porta de uma vez, lá estava ela.

'Oi Doutora... posso entrar?' disse, com um olhar tímido e um sorriso mal disfarçado. 'Lu...cy' balbuciei, dando dois passos para trás, permitindo seu acesso, coisa que ela fez imediatamente, puxando duas malas bem grandes. Em seguida, ela fechou a porta e me olhou aparentemente sem saber o que falar... e eu também não sabia... e assim ficamos um tempo, imóveis, até que tomei a iniciativa, segurando os braços dela e começando a chorar:

'Lucy! Onde... onde você estava? Por que fez isso comigo? Eu... eu... estou sofrendo há quase um mês... um mês sem uma ligação, uma visita ou um bilhete... por quê?' dizia em um tom nervoso e ao mesmo tempo, aliviado. E ela não respondeu. 'Não vai falar nada? Não vai responder? Eu não significo nada para você? Sua egoísta... sua...' disse, cortando a frase para não falar algo que iria fazer eu me arrepender depois. 'Eu contarei tudo, Doutora, mas agora você precisa desabafar... pode me bater, xingar, gritar... não vou reagir pois mereço qualquer coisa que você queira fazer.' foi a resposta, de cabeça baixa.

'Te bater, te xingar ou gritar?! Sua... sua cabeça-oca, a única coisa que quero fazer com você... que queria ter feito no último mês é...' disse, soltando seus braços, para na sequência abraça-la e beija-la de forma apaixonada. E foi assim que passamos as próximas horas, na cama, nos beijando, nos amando e dizendo o quanto estávamos com saudades... claro que ela me contaria e explicaria tudo, mas naquele momento, eu não estava preocupada com isso... minha gatinha havia voltado e só isso importava.

E foi só no início da noite que paramos um pouco, quando puder curtir sua pele e seu cheiro, abraçando-a em conchinha... eu adorava alisar seus braços, suas costas e todo o resto... 'Malvada, podia ter me visitado para ficarmos juntinhas algumas horas... depois você ia resolver sua vida de novo' disse enquanto alisava seu lindo cabelo. 'Se voltasse, não ia conseguir sair de novo... estava morrendo de saudades da minha dona' foi a resposta, alisando meu braço. 'Minha lindinha... pelas malas, vi que você veio para ficar, né?' perguntei sem qualquer rancor... era incrível como aquele mês horrível tinha desvanecido após algumas horas com ela. 'Se a Doutora ainda me quiser' foi a resposta com receio. 'Será que quero? Ou será que vou expulsar minha gatinha na base da vassourada?' foi minha resposta, dando um tapa no traseiro dela. 'Isso só depende do que você vai me contar agora' comentei, para ela responder 'Eu sei'. 'São três coisas que você devia resolver, vamos a elas...' concluí, aguardando o seu relato.

'Sim, três coisas... minha madrasta... minha banda... e a maluca que atacou a gente no shopping... pode não parecer, mas minha vida é bem agitada, Doutora.' disse, ainda me alisando. 'Uau! Minha lindinha tem vários inimigos... comece com a madrasta' respondi, realmente curiosa.

'Ok... minha mãe faleceu de câncer de mama quando tinha apenas três anos... e como meu pai trabalhava muito, ele contratou uma babá em tempo integral... morávamos em Indianópolis, perto daqui, e obviamente para a babá, morar com uma família abastada era uma ótima oportunidade. Ela me tratava como filha e foi questão de tempo para meu pai se apaixonar e casar com ela. E minha infância e adolescência não tiveram nada de excepcional, exceto que me interessei em tocar guitarra e meu pai sempre apoiou. Quando tinha dezessete anos, meu corpo já estava meio definido, então estas roupas que uso hoje foram todas presentes do meu pai entre os dezessete e os dezenove. Ele também fez uma reserva financeira para minha faculdade, pós-graduação, etc. Aí... ele teve câncer no estômago, que o matou muito rápido duas semanas depois que fiz dezenove anos.'

'Sinto muito... tadinha, perdeu os dois tão cedo' comentei, com pena realmente. 'Sim, mas considerava minha madrasta praticamente como minha mãe, ao menos por três meses após a morte de papai, quando ela apareceu com um namorado no apartamento onde morávamos, herança minha e dela que era a esposa. Fiquei muito incomodada, mas não podia fazer nada... até que... uma noite eu estava fazendo uma sopinha no micro-ondas e ele entrou na cozinha bem devagar, chegou por trás de mim e me apalpou... Doutora, eu era desconfiada pelo jeito que ele me olhava, mas... nunca esperava por isso', e ela suspirou profundamente neste momento. 'Eu estendi a mão e peguei a primeira coisa que consegui, uma panela de pressão, e dei na cara dele com tudo... e quebrei seu nariz' disse, sem esconder um sorriso de satisfação.

'Ele foi parar no hospital e minha madrasta disse ter sido um mal entendido, que ele não queria passar a mão em mim... mas ameacei que se ela levasse qualquer cara para o nosso apartamento de novo, iria na polícia dizer que ele tinha me assediado e ela era conivente. Ela não levou mais ninguém mas nosso relacionamento foi só ladeira abaixo depois dessa'. 'Nossa... não dá pra brincar com você' comentei, imaginando o cara com o nariz afundado. 'Quando fiz vinte e um anos, ela me disse que não tinha mais qualquer obrigação legal e que não iria sustentar uma vagabunda que só queria saber de tocar guitarra e não trabalhava e nem estudava... isso tem a ver com a banda que eu tinha formado... ela não podia me impedir de entrar no apartamento, mas podia me proibir de comer a comida que ela comprava... e a partir daí, eu que me virasse para comer, este foi meu presente de aniversário'. 'Bom, isso já explica muita coisa' comentei, finalmente entendendo a fome que ela passava.

'E para completar, ela me disse que se passasse mais de um dia fora de casa, ela ia jogar todas as minhas roupas pela janela, pois se era para eu sair de casa, era para sair de vez'. 'Por isso você voltava para lá todas as manhãs...' comentei, matando mais uma questão. 'Sim, até que dormi com você e pensei que se ela realmente me expulsasse, teria onde ficar e me acomodei junto a Doutora... era tão bom, para que voltar lá? É só isso... e agora o problema dois'. 'Ansiosa, minha gatinha' respondi, a abraçando mais ainda.

'Já tocava e cantava desde meus quatorze anos, mas sempre o estudo veio em primeiro lugar... com dezenove eu estava no segundo ano de Artes Plásticas na USP e após a morte de papai, tranquei a matrícula para me dedicar a meu maior sonho, formar uma banda. E com um guitarrista, uma baixista e um baterista, todos da faculdade, formamos um quarteto que tocava em festas, alguns bares e principalmente para os colegas... e estava levando a sério, queria crescer com a música... mas precisava de dinheiro, para os instrumentos, aluguel de um estúdio, audições, publicidade e um monte de coisas... e o único dinheiro disponível de todos nós, era o fundo de reserva que papai montou'. 'Ihhhh, já farejei o problema...' comentei, só esperando para confirmar meu pensamento.

'É tão óbvio assim? Modéstia a parte, eu era a melhor guitarrista e ainda bancava tudo, então ninguém questionava eu ser a principal. Mas quando finalmente achamos um produtor, o desgraçado do outro guitarrista convenceu a banda que me manter como principal seria um problema, porque meu gênio era de uma mimada metida e instável... e eles assinaram o contrato sem mim... de um dia para o outro, eles foram embora e me deixaram sozinha e sem dinheiro, pois gastei tudo que tinha na banda'. 'Nossa, Lucy... que sacanagem' comentei, sem acreditar em tanta ingenuidade. 'Por isso quando a madrasta má cortou minha comida, eu não tinha mais dinheiro para viver... e nem trabalho, pois fiquei meia deprimida de ser passada pra trás. E essa junção de porcarias, me levou ao problema três, aquela maluca'. Neste momento, Lucy se virou pra mim e com os olhos marejados balbuciou: 'Doutora, promete que não vai pensar mal de mim quando eu contar isso? Promete que não vai achar que sou uma puta ou algo parecido?'. 'Claro que não... pode ficar sossegada, eu sei bem o que você é' respondi, para tranquiliza-la, mas não nego que fiquei um pouco receosa.

'Obrigada' foi a resposta, se virando de novo, ao mesmo tempo em que aproveitava para beijar a nuca macia e cheirosa dela. 'Estava sem amigos, sem dinheiro, sem vontade de fazer nada e sem comida. Mas precisava comer, então comecei a frequentar os bares e boates de Moema toda noite, procurando bicos como receber os clientes, servir as mesas ou mesmo tocar um pouco. Alguns pagavam pelo meu trabalho e ficava bem por alguns dias, outros me davam apenas comida, mas que escolha tinha? Até que em uma noite, em um bar de MPB, estava oferecendo meu trabalho para o gerente e aquela mulher ouviu... ela me chamou para sua mesa, falou que ficou com dó, pediu umas comidinhas e a boba aqui aceitou feliz, imaginando ter encontrado uma pessoa boa. Aí no final da noite, saí do bar com ela meia bêbada e no meio da rua ela começou a me agarrar... eu não queria, comecei a chorar e ela disse que eu era uma trouxa... e disse que... que... me daria mil reais se passasse a noite com ela... eu ganhava quarenta, cinquenta por noite com muito esforço... imagina uma promessa de mil reais, Doutora' nesse momento Lucy estava chorando e eu não sabia o que pensar.

'Eu fui... e foi a noite mais nojenta da minha vida... me senti suja, usada como um pedaço de carne... ela me machucou, parecia que tinha prazer em causar dor... foi horrível... De manhã ela pagou e prometi pra mim mesma que nunca mais faria isso, que era melhor passar fome'. Lucy deu outro longo suspiro e eu... eu estava sentindo uma angústia terrível por ela. 'E foi o que começou a acontecer, depois que o dinheiro acabou. Fiquei mais deprimida e as vezes não comia nada o dia todo e conseguia algo a noite... as vezes nada a noite também e vasculhava o lixo das padarias para conseguir uns pães velhos... pedia ajuda para algumas pessoas, mas todas só queriam... me comer... e eu fugia quando notava o olhar com segundas intenções... procurei uns empregos, mas não tinha qualquer qualificação, então só podia tentar continuar tocando... e quando finalmente consegui um bar para tocar, achei que minha vida tinha tomado um rumo.' Lucy enxugou as lágrimas e respirou fundo antes de continuar.

'Neste bar eu tocava quase toda noite, até que a maluca me achou lá... e no fim da minha apresentação, veio falar que queria passar a noite comigo de novo e pagava mais mil... recusei... e no dia seguinte fui demitida... depois descobri por uma amiga de lá que a desgraçada disse para o dono que eu me drogava e roubava os locais onde trabalhava... ela fez isso para me obrigar a aceitar o dinheiro dela... você acredita, Doutora?' 'Não...' comentei, inconformada com o nível de doença de algumas pessoas. 'Mas não aceitei, e voltei aos bicos... na noite em que nos encontramos, não tinha comido nada o dia todo... meu estômago doía e estava tonta, por isso parei na esquina... e você me acertou'. 'Tadinha... realmente você já estourou sua quota de pessoas ruins, Lucy' comentei com meu coração cortado.

'Em compensação achei você Doutora, na verdade você me achou... e após te conhecer, tudo mudou... você me acolheu, me protegeu e nunca pediu nada em troca... você me viu como uma pessoa que precisava de ajuda, igual no dia em que me deu dinheiro e só exigiu que eu almoçasse... parecia que você era tão sozinha quanto eu e me tratava tão bem... e eu adorava quando você me chamava de gatinha, era tão carinhoso... e você me acariciava, me deixava dormir no seu colo... e não consegui evitar, me apaixonei totalmente... mas tinha vergonha de admitir que sonhava em te tocar, te beijar e ir pra sua cama... até que você me convidou'. 'Mais ou menos' pensei, lembrando do meu fora naquela noite. 'E tudo que cantei naquela música é verdade, a Doutora é todo o amor que eu preciso.' disse ela com aparente alívio por finalmente colocar isso pra fora. 'Eu também me apaixonei por você, mas nunca te falei... desculpe... foi tão diferente e tinha medo que você fosse embora... o que acabou acontecendo'. comentei com uma ponta de tristeza. 'Mas falta me dizer se resolveu tudo.'.

'Sim... eu procurei o advogado que fez o inventário do meu pai, ele me conhecia desde criança... e contei pra ele tudo que contei pra você agora... ele ficou horrorizado e prometeu me ajudar, e ajudou. Fomos até minha madrasta e disse que não queria mais morar com ela, então tinha que vender o apartamento e dar minha parte... e também ia processa-la por assédio moral por me deixar com fome e ameaçar jogar minhas roupas pela janela... ela se borrou de medo e implorou por um acordo... aí vimos o valor do aluguel do nosso apartamento e ela passou a me pagar a metade, e eu saí de lá de vez... agora tenho uma renda mensal garantida'. 'Muito bom, parabéns!' respondi admirada. 'Já recebi a primeira parcela e separei o dinheiro que a Doutora me emprestou para almoçar, tá tudo anotado e vou te devolver hoje mesmo'. 'Não precisa...' retruquei, 'Precisa sim... só aceitei no dia porque era um empréstimo, lembra?', 'Tá, tem razão...' disse, me rendendo ao argumento.

'Quanto a banda, eu tinha as notas fiscais de tudo que gastei, eram lembranças... aí procuramos o novo guitarrista principal e ameaçamos que se ele não devolvesse meu investimento, íamos processar ele e o produtor por má-fé, estelionato e outras coisas... ele sabia que se o produtor fosse envolvido, ia perder o contrato e aceitou me devolver em doze parcelas... já recebi a primeira também', 'Nossa, gatinha esperta!' comentei realmente admirada.

'E a maluca, fomos até o apartamento dela... eu disse que minha amiga e o dono do bar aceitavam ser testemunhas de um processo por injúria contra ela... e fiz um B.O. pela agressão no Shopping... ela chorou e implorou para eu não fazer isso e prometeu nunca mais nem chegar perto de mim. Agora estou armada contra a maluca, se ela pensar em se aproximar, vai se entender com a polícia' finalizou ela, com um suspiro de alívio.

E eu estava refletindo... que história, como aquela menina já tinha sofrido, nas mãos da madrasta, dos amigos, de uma maluca psicopata... eu a encontrei totalmente desnorteada e sem querer, a influenciei para seguir com a vida. Isso me deixou muito feliz, mas faltava o principal... e agora?

'Lucy, fico muito feliz que você se arrumou, recuperou seu dinheiro e vai ter uma renda... mas o que vai fazer agora? Quais são seus planos para o futuro?' perguntei realmente interessada. 'Bom, se a Doutora deixar eu ficar aqui, vou ajudar com as despesas, se não, vou alugar um apartamento pequeno... mas queria continuar te vendo, pois eu te amo de verdade... também vou retomar minha faculdade e tentar montar uma nova banda para carreira solo... vou contratar os músicos, e quem sabe com o tempo, chegarei em algum lugar. Só isso. O que a Doutora acha?' foi a resposta, se virando pra mim e olhando nos meus olhos.

Fui pega de surpresa... eu queria dizer apenas que a amava também, que minha casa e meu coração eram todos dela, mas o maldito racional estava me incomodando: 'Lucy, eu não sei... você é tão novinha, tem tanto pelo que lutar ainda... e eu sou tão mais velha que você... me pergunto se nessa vida nova, você não vai achar alguém da sua idade, que queira lutar ao seu lado... não sei se sou a pessoa certa pra você'. Lucy suspirou e perguntou olhando dentro dos meus olhos: 'Doutora, você tem dúvidas sobre os seus sentimentos... ou tem dúvidas sobre os meus? Por favor, eu preciso saber'.

Esta pergunta me atravessou como uma espada... eu não tinha qualquer dúvida, mas como falar que na realidade, estava com medo dela? Como explicar que eu não queria passar de novo por este mês que ela ficou longe? Bom, era hora das máscaras caírem, então respondi: 'Lucy, eu te amo... eu queria muito que você morasse aqui comigo, mas... você é novinha demais, quem garante que daqui a seis meses, um ano, você não vai encontrar outra pessoa que fará seu coração balançar? Eu não quero sofrer de novo... talvez seja melhor cada uma levar sua vida e quando der, nos vemos... e vai durar o tempo que tiver que durar'.

Lucy suspirou de novo e demorou alguns segundos para responder: 'Você tem dúvidas sobre os meus sentimentos... mas eu te amo tanto, Doutora... até comprei uma coisa pra gente' disse ela, com o olhar triste. 'Comprou o que?' perguntei com curiosidade. 'Minuto' disse ela se levantando e indo até a sala, para pegar algo na mala. Ela voltou rápido com uma coisinha roxa pequena, parecida com uma caixinha que guarda jóias... em seguida deitou de novo e abriu na minha frente.

'Olha, eu peguei a primeira parcela do reembolso e comprei estas jóias pra gente... uma pulseirinha e uma gargantilha, as duas de ouro com um pingente de meio coração. A minha dona usa a pulseira e sua gatinha usa essa gargantilha como uma coleira... não é legal?' disse ela sorrindo.

Achei curiosa a palavra "Coleira", mas por ser bonitinho dei corda: 'Mas o que significa?'. 'Olha, sua gatinha tá sempre com metade do coração e a outra metade fica com a dona... aí a gatinha sempre deve voltar para perto da dona, se não o coração dela fica partido e triste... o coração da gatinha só vai ficar completo quando estiver perto, brincando ou te amando... e pra completar é a minha dona que vai colocar essa coleira em mim... assim oficialmente tomará posse da sua gatinha Lucy'.

Sinceramente, fiquei sem ação ou palavras... quando finalmente eu estava sendo racional e levava nosso relacionamento para um ponto de equilíbrio seguro e tranquilo... esta miserável espertinha vem com uma destas... como eu poderia retrucar ou resistir? Praticamente derrotada, eu comentei com um sorriso:

'Não adianta... você é única mesmo... não existe outra gatinha no mundo que foge de casa e quando volta, traz a própria coleira... e ainda pede para a dona colocar... não adianta, sabia? Eu te amo, Lucy'. Ela me abraçou e alguns segundos antes de um beijo delicioso e apaixonado, respondeu 'Também te amo, Cristy'. E essa última frase derreteu meu coração de vez... foi a primeira vez que ela me chamou pelo nome e ainda ganhei um apelido carinhoso.

'Cristy?' perguntei durante um intervalo dos beijos. 'É bom que goste Doutora, foram vários dias para pensar em um apelido só nosso' respondeu ela sorrindo um segundo antes de voltar a me beijar. 'Você não achou que eu ia te chamar de Cris, igual aquela cadela abusada da "Pri", não é?' disse no intervalo seguinte, me deixando pasma por ela ainda se lembrar daquela brincadeira. 'Lucy... cala essa boca! Me beija!' foi a minha resposta em um tom autoritário. E como sempre, ela me obedeceu e não falamos mais nada pelo resto da noite... acho incrível como ela fica extremamente excitada quando eu dou uma ordem... e com sua "versão tarada" no controle (ou fora de controle) falar era realmente desnecessário.

E esta foi a nossa história... de como uma médica feliz e satisfeita profissionalmente, mas infeliz e sozinha na vida pessoal, encontrou por acaso uma linda e talentosa guitarrista, que estava deprimida, com fome e sem rumo... e de como a abrigou, alimentou, passou a confiar nela e lhe deu acesso a seus territórios mais íntimos... e de como ela jantou, dormiu, se alisou e invadiu sua cama e seu coração.

E agora após terminar este relato e relembrar tudo em detalhes, só uma conclusão se apresenta... DANE-SE O FUTURO, dane-se o que pode acontecer amanhã, semana que vem ou ano que vem... o que importa é o hoje,  e hoje eu a amo... sim, não posso e não vou negar... eu amo a Lucy... e sinto no fundo do meu coração duas coisas... que o que começou sem querer graças a uma chuva, uma trombada e uma saída atrasada do trabalho, é tudo o que eu poderia querer na minha vida... e que esta linda e louca história de amor que agora compartilhamos, está apenas começando.

O Início...


terça-feira, 11 de agosto de 2020

Minha Gatinha Lucy - Parte VI - Passeio


Talvez ao invés de "passeio", a narração a seguir poderia ter o título de "ponto de ruptura". Não é querendo ser dramática, mas quem poderia imaginar a merda gigantesca que aconteceria algumas horas depois de uma lacônica pergunta como "Vamos passear"? 

Enfim, talvez seja melhor começar no meio da semana, quando comentei com a Pri: 'Estou cansada de ficar em casa, vou levar a Lucy para passear no Shopping', 'Vai com cuidado, amiga' foi a resposta, 'Mas por quê?' perguntei sem entender, 'Você já viu alguém passeando com gatos na rua? São ariscos e assustados... obviamente também não podem usar coleira' foi a resposta com deboche. Na hora simplesmente mostrei a língua para ela e desconsiderei... mas talvez tivesse sido melhor, refletir um pouco mais a respeito disso.

De qualquer forma, não pensei mais no comentário da Pri, e quando acordamos perto das 14:00 hs no sábado, aconteceu a fatídica frase:  'Vamos passear?', 'Passear?' foi a resposta enquanto cheirava meu pescoço, 'Sim, estamos há meses trancadas aqui, nós vamos e voltamos rapidinho... e depois temos a noite toda para a gatinha brincar com a dona... que tal?' disse da forma mais convincente possível. 'A gatinha adora obedecer sua dona, vamos sim!' foi a resposta bem animada. 'Então está combi...' tentei falar, mas fui interrompida por um beijo mais animado ainda.

E após tanto tempo, pude ver a Lucy se arrumando para sair... ela acabou trazendo (não sei de onde) algumas roupas e deixado lá, então para ela foi fácil vestir uma saia até o joelho, uma blusinha branca, brincos, corrente e uma maquiagem leve. Já eu estava de calça jeans e blusa preta. Eu nunca gostei da idéia de dirigir, então usualmente meu meio de transporte era o metrô, mas para uma ocasião especial como sair com a gatinha, o telefone de um ponto de táxi próximo era meu trunfo na manga.

O trânsito até o Shopping Villa Lobos foi bem tranquilo e aquele dia se encaminhava para terminar em apenas um passeio simples e normal, com Lucy olhando as vitrines ao mesmo tempo em que segurava minha mão... mas minha querida gatinha mudou de atitude completamente quando passamos em frente a uma loja de instrumentos musicais. Ela soltou minha mão e parou como que hipnotizada, admirando e quase babando pelas guitarras, baterias e outras coisas expostas na vitrine. Ao notar o grande interesse dela, não resisti a dizer 'Vamos entrar', coisa que ela fez imediatamente.

Eu não entendia muito deste assunto, mas estava sentindo um enorme prazer em acompanhar Lucy em algo que ela claramente gostava muito. Ela olhava com atenção cada item e foi aí que a sempre sacana (ou certeira) mão do destino agiu. A medida que andava totalmente encantada pela loja, Lucy sem querer deu de cara com um vendedor que tentava demonstrar algo em uma guitarra para um possível cliente, mas que visivelmente não estava fazendo isso muito bem. Com toda a boa vontade do mundo, ela perguntou se podia ajudar em alguma coisa, oferta prontamente aceita pelo rapaz que não sabia nem segurar direito aquela linda peça verde-escura com detalhes em marrom.

Lucy pegou a guitarra e a posicionou perfeitamente bem... em seguida, testou as cordas, ajustou, testou e ajustou umas cinco vezes... até que com um movimento rápido, causou um acorde lindo e melodioso que encheu a loja. Ao olhar bem para as mãos dela segurando aquela belezinha, finalmente entendi o que eram aqueles calos estranhos que ela tinha... Lucy era uma guitarrista de muitos anos e sua mão era calejada de tanto segurar aquela linda peça. Só por descobrir isso, aquele passeio já tinha valido a pena.

Após ver que minha gatinha sabia o que estava fazendo, o cliente começou a perguntar diversas coisas, e Lucy respondia com gosto. Até que ouvi ele pedir por uma demonstração, coisa que ela hesitou em concordar, mas que depois do vendedor acenar com um positivo, foi aceito com um grande sorriso. Mesmo não entrando na conversa em nenhum momento acabei me aproximando, pois estava fascinada em vê-la tão feliz em fazer algo que não fosse... sexo (sério).

Não entendo o suficiente de instrumentos musicais para descrever todos os detalhes técnicos do que ela pediu ao vendedor, mas basicamente a guitarra foi ligada a uma mesa de som, onde ele definiu o playback da música que ela pediu e um microfone de lapela foi colocado em sua blusa. Lucy ficou um tempinho de olhos fechados, testando as cordas da guitarra e fazendo ajustes que para meu ouvido leigo, não causavam a menor diferença... mas considerando que após cada série deles, ela sorria, então algo devia estar acontecendo. E foi na posição de uma simples espectadora, que minha gatinha me surpreendeu (levei um susto) quando ela abriu os olhos e falou bem alto enquanto olhava para mim 'Esta música é para você, Doutora... Breathless da banda The Corrs'

Não consigo explicar o que senti na hora, eu nem sabia que ela tocava e agora... agora Lucy estava cantando pra mim... não conhecia essa banda, mas entendia as frases... e em sua maioria, parecia que era o coração dela falando pra mim... foi... surreal... talvez a sensação mais próxima que já senti foi quando estava com uma crise renal e me aplicaram morfina... leve... saindo do corpo... fora da realidade... não dá pra explicar... o tempo passou a ir mais devagar e meus sentidos recebiam um caleidoscópio de sensações...

"Venha e me deixe sem folego... Seduza-me, provoque-me... Até que eu não possa mais negar esse adorável sentimento...Me faça ansiar pelos seus beijos"... eu não podia acreditar que estava ouvindo isso... direto da boca dela, que tocava tão naturalmente como se a guitarra fosse uma extensão do seu corpo, como se as cordas e seus dedos fossem uma coisa só, com movimentos leves e ritmados... linda... perfeita... eu ainda tremo só de lembrar daquela cena que para mim passava em câmera lenta...

"E se não houver amanhã... E tudo o que temos for aqui e agora... Eu estou feliz em ter você... De algum jeito, você é todo o amor que eu preciso... É como um sonho... Embora eu não esteja dormindo... E que nunca vou querer acordar"... essa foi a última parte da qual me lembro de ouvir... eu não decorei a música na hora, mas a pesquisei na semana seguinte... e ouvi... ouvi... ouvi... não vou esquecê-la nunca mais...

Lucy cantou e tocou... e quase no final, brilhava com a força de um sol... e eu... estava parada e chorando como uma adolescente deslumbrada por seu ídolo... e quando o último acorde saiu da guitarra e ela olhou pra mim tudo fez sentido, foi como se uma cortina fosse retirada da frente dos meus olhos... eu a amava, precisava dela... mas naquele momento, voltei a si de forma rápida e violenta, quando uma plateia improvisada explodiu bem atrás de mim, com gritos, assobios e palmas... acho que metade do Shopping havia parado fora da loja para ouvir aquela música...

Sim, eu estava (quase) normal pois aquele estouro me trouxe de volta a realidade, e quando olhei para Lucy, eu vi alguém segura de si, alguém que tinha nascido para aquele papel... naquele momento, ela não era a minha gatinha, era uma estrela que pertencia ao mundo todo, era alguém imponente, inatingível... eu não era nada perto dela... e ela disse, a música disse... que eu era todo o amor que ela precisava...

Creio que esta parte do relato foi um pouco confuso... mas tanto no dia quanto agora, as lembranças se confundem... não creio que conseguiria externar em palavras o que estava sentindo... eu... eu... nem vou tentar... pois o fim daquele belo momento realmente foi inesperado, assustador e logo em seguida...

O vendedor agradeceu, Lucy sorriu, o cliente agradeceu, as pessoas acenaram e começaram a debandar, e ela veio até mim. 'Gostou, Doutora?' disse me olhando com carinho, 'Amei...' balbuciei, sem fôlego. 'É tudo verdade, viu?' ela falou, sorrindo e saindo rápido da loja, brincando para me fazer correr atrás dela, o que fiz alguns segundos depois. E quando coloquei o pé para fora, eu vi algo inacreditável... uma mulher um pouco mais velha do que eu, estava com a mão direita enforcando Lucy, que tentava se soltar.

Eu não pensei, a reação foi instantânea... saí correndo e dei um encontrão na mulher, 'SOLTA ELA! VOCÊ ESTÁ LOUCA?' gritei a plenos pulmões. A mulher a soltou imediatamente, e com um olhar de ódio me encarou: 'Então é você a vítima da vez?', 'Sai de perto dela!' ordenei espumando de raiva, abraçando Lucy que não falava nada. 'Já saí... eu não acreditei quando ouvi a voz dessa vadiazinha cantando, tinha que vir cumprimentá-la' disse sorrindo, 'Sai daqui! Ou eu chamo a segurança e a polícia! Sua louca!' completei sem raciocinar.

'Louca... sim... talvez esta vagabunda tenha me enlouquecido e espero que não seja o seu destino também... mas sabe, me dá pena ver alguém caindo no mesmo buraco que eu... boa sorte' concluiu ela, se afastando. 'Calma, Lucy! Calma! Eu não vou deixar ninguém te machucar' dizia enquanto a abraçava e sentia ela tremendo. 'Doutora... me leva pra casa...' pediu ela, bem baixinho e com um choro abafado. E foi assim que o dia mais mágico da minha vida acabou... com uma louca atacando a minha linda guitarrista.

Não perguntei nada e ela não falou nada, só a levei pra casa... depois que chegamos ela se trancou no banheiro e demorou umas duas horas para sair... e quando saiu, estava com os olhos inchados e sem falar nada... comeu alguma coisa, se trocou e foi se deitar... e não falou nada... eu não sabia como tocar no assunto, mas considerando o quanto a tinha afetado, preferi deixar para o dia seguinte...

E no fim, também deixei para o dia seguinte lhe falar o quanto a amava, o quanto tinha gostado da música... e este foi o erro pelo qual iria me culpar e me arrepender por muito tempo, pois talvez se tivesse falado, o desfecho da manhã seguinte poderia ter sido totalmente diferente.

Demorei para dormir, mas estranhamente acordei mais cedo do que o normal... e ao me virar, o espaço vazio na minha cama fez meu coração parar por um momento. 'Lucy? LUCY!' gritei por ela enquanto me levantava, imaginando que ela poderia estar no banheiro... mas é esquisito, no meu íntimo  mais profundo eu sabia que ela não estava... eu sentia que ela não estava em nenhum lugar do apartamento...

Minha gatinha Lucy havia fugido de casa.

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Conclui a seguir...

E se está curioso(a) sobre a música que Lucy cantou, ela está logo aí embaixo, traduzida...


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Minha Gatinha Lucy - Parte V - Cio & Ciúme

Escrever sobre a próxima etapa do relacionamento com a minha gatinha Lucy será divertido, pois envolve tanto o ânimo e vontade que uma menina tão jovem tem em relação ao sexo, quanto o ciúme que ela passou a sentir em relação a sua "Dona".

Sobre o sexo, eu posso afirmar com toda a certeza que ela vivia em um aparente e permanente estado de "cio". Como nunca a vi menstruar em todo o tempo em que esteve na minha casa, só posso inferir que ela tomava injeções de hormônio. E como ela queria sexo todo dia, ao acordar, a noite, de madrugada ou mesmo durante o sábado e domingo inteiros, imagino que não havia nada de errado na sua vida em relação a este assunto.

Minha gatinha andava nua pela casa o tempo todo... no máximo em dias mais frios, colocava uma camisola bem folgada e mais nada... já eu, por ser friorenta, tentava colocar uma calça ou blusa de moleton, apenas para ser atacada, bolinada e ter a roupa arrancada a qualquer momento e em qualquer cômodo.

Preciso admitir que durante as primeiras semanas, ter essa menina ninfomaníaca me perseguindo pelo apartamento foi algo muito excitante... ser recebida ao voltar do trabalho com um beijo apaixonado por alguém que estava emanando tesão, fazia bem a auto estima de qualquer pessoa... já ser atacada durante o banho para transar embaixo do chuveiro me era algo novo e interessante.

E a próxima informação que arranquei dela, foi exatamente em um domingo a noite, quando já estava exausta de toda aquela atividade física. 'Caramba gatinha, como você aguenta tanto assim? Nem na sua idade eu era tão... animada... e olha que já faz uns quinze anos... quer ver, você tem o que, vinte e dois, vinte e três?' perguntei com naturalidade, 'Vinte e um, Doutora' respondeu se aconchegando, enquanto ficava beijando meu pescoço. "Doutora" era o nome pelo qual ela me chamava o tempo todo, nunca Cristina e nem Cris, apenas "Doutora".

Quanto ao fato de que ela havia pedido por uma "Dona", isso só vinha a tona nas dezenas de conversas de travesseiro pela qual passávamos. "Minha dona gosta disso?", "A gatinha está satisfazendo a dona dela?", "Quero brincar com minha dona" e por aí vai... ter uma "Dona" nem era um fetiche tão incomum assim, mas vindo de uma menina com dezesseis anos a menos, na prática que quase podia ser minha filha, isso soava muito real e sincero... as vezes  me perguntava se ela não tinha sido criada pela mãe, ou talvez se ela tinha ficado órfã muito cedo, mas nunca, nunca ousei externar essa questão. Quando minha gatinha Lucy quisesse me contar alguma coisa, ela certamente me contaria.

A primeira vez em que recusei sexo, categoricamente, foi em um período menstrual pesado, com muita cólica, dor e sangue abundante. Imaginava que ela seria compreensiva, mas tanto sua reação como atitude, me deixaram comovida. Minha linda gatinha cuidou de mim por vários dias, fazendo compressas e massagens, pegando remédios, preparando comidinhas que gosto e dormindo abraçadinha enquanto alisava minha cabeça com ternura. Nem parecia ela, mas quando fiquei bem novamente, a versão cuidadora reverteu para a versão tarada em tempo recorde.

Então posso concluir que se o único aspecto de nosso relacionamento fosse o sexo, com certeza seríamos o casal mais feliz da face da terra. Infelizmente nada é tão simples, e o ciúme infantil dela só não gerou uma briga monstruosa, pois tanto minha amiga Priscila como eu, somos pessoas tranquilas e preferimos compreender que Lucy não tinha culpa de ter entendido errado uma brincadeira banal.

Minha amiga já havia falado tantas vezes sobre eu tomar cuidado, saber mais a respeito da Lucy, que um dia fiquei injuriada e pedi para ela nos visitar para ver com seus próprios olhos, que minha gatinha era linda e inofensiva. O convite foi aceito, ela marcou que iria sábado as 15:00 hs, o que permitiu que eu avisasse a gatinha que ela deveria se vestir bem bonito e se comportar, traduzindo, nada de me agarrar enquanto a Priscila estivesse em casa.

Percebi uma certa contrariedade por parte dela, mas como ela não argumentou e nem falou nada, imaginei que não era nada importante. E as 15:10 hs Priscila chegou, a gatinha se ofereceu para abrir a porta e trazer uma bebida para todas e depois se sentou ao meu lado educadamente.

Nossa conversa seguiu tranquilamente por muito tempo, Lucy estava causando uma ótima impressão e notei que Priscila estava impressionada com a educação e comportamento da minha linda gatinha. Mas a tragédia rondou aquela tarde, quando minha amiga fez uma brincadeira boba, que obviamente não foi bem entendida.

'Cris, estou tão feliz por você... nos últimos tempos, você anda tão animada e bonita que anda sendo difícil de resistir, minha amiga... um dia desses vou te agarrar lá na clínica' disse, rindo bastante em seguida, ato que imitei com gosto... Pri era uma ótima amiga, e obviamente nunca haveria nada disso, mas... Lucy não gostou nem um pouco daquela frase... na hora eu não notei, mas ela se aproximou mais e abraçou meu braço direito.

'Luciana, cuide bem dela, você não vai achar outra igual' disse a Pri, desta vez, falando sério. 'Pode deixar... vou cuidar sim, porque ela é minha dona e eu sou só dela... e ela é só minha' foi a resposta em um tom bem agressivo. 'Lucy, isso é forma de falar com nossa convidada?' repreendi ela, meio que levando na brincadeira ainda. 'Tudo bem, Cris, pelo menos você está sendo bem cuidada' respondeu a Pri, rindo. 'A Doutora é minha, não se esqueça disso!' disse Lucy, alto e mais agressivo ainda, enquanto abraçava meu braço bem mais forte.

'Lucy! Por que você está falando assim?' repreendi ela, agora a sério. 'Você ouviu... essa... essa aí... vem na nossa casa dizer na minha cara... que vai te agarrar... ninguém pode te agarrar... eu sou só sua e você é só minha' explicou Lucy, soluçando e começando a chorar enquanto abraçava mais ainda meu braço. A incredulidade no olhar da Pri devia ser bem parecida com a minha, já que não acreditamos que ela havia levado a sério aquela brincadeira. E como poderia brigar com ela, que simplesmente estava chorando por imaginar que a Priscila me agarraria no trabalho? Foi a própria que havia dito isso.

'Lucy, ela estava brincando, calma... somos super sérias no trabalho e apenas amigas... é de você que eu gosto, sua boba' falei para tranquilizá-la, tentando fazer ela parar de chorar. Pri ficou claramente envergonhada e saiu do outro sofá, sentando-se ao lado dela e disse 'Luciana, desculpe... era brincadeira, eu nunca faria isso... gosto da Cris como amiga e fico feliz de vocês estarem bem... ela fala de você todo dia, você é super importante para a minha amiga'. 'Tá...' foi a única resposta dela, começando a se acalmar.

Resumindo, nós duas passamos quase meia hora explicando que era brincadeira e a bajulando sobre o quanto ela era importante pra mim... até que felizmente voltou ao normal como se nada tivesse acontecido. E dois dias depois na clínica, rimos muito de como uma brincadeira boba havia sido levada tão a sério. Mas no final, isso serviu para acender um alerta importante:

'Cris, ela é um amorzinho e uma graça, mas é muito jovem e imatura... se você realmente ficar com ela, se prepare para ensinar e relevar muita coisa' disse, me alertando sobre possíveis conflitos futuros. 'Eu sei, mas como vou me separar dela? Você ouviu, eu sou sua dona.' respondi com um sorriso. 'Então boa sorte amiga, gatos são ciumentos e se provocados, atacam... tome cuidado' disse, batendo no meu ombro. 'Pode deixar, ela vale o trabalho...' respondi, realmente otimista em relação a nosso relacionamento.

Ela valia o trabalho e a paciência que eu tinha que ter... afinal, era obrigação da dona, alimentar, abrigar, educar e amar a sua gatinha... e sem eu nem notar, era exatamente isso que estava acontecendo... não sei quando começou, mas ela realmente estava se apoderando de meu coração.

Mesmo não admitindo isso pra ninguém, eu estava começando a amar a Lucy.


domingo, 9 de agosto de 2020

Minha Gatinha Lucy - Parte IV - Território

Refleti por vários dias para conseguir escrever esta parte, por dois motivos... primeiro, relembrar em detalhes a parte "inocente" do meu relacionamento com a gatinha me deixou um pouco triste... era tão bom, aquela sensação nova e desconhecida de um carinho sem compromisso... e segundo, imaginar que tudo isso mudou de um dia para o outro, novamente por uma ação minha... mas o que eu poderia esperar? Como não prever o que ia acontecer após o mal entendido do meu convite?

Enfim, por muitos e muitos dias, talvez duas ou três semanas, eu continuava realizando o nosso ritual de tomar banho, comer, fazer carinho e ir dormir... eu não saía mais com nenhum amigo, não tinha qualquer interesse romântico, não passeava nos finais de semana... todo momento que eu tinha livre, tentava ficar perto da gatinha, que não reclamava ou exigia nada em troca... e hoje, percebo que esta aura de mistério em torno dela e de nossa relação era a parte mais gostosa de todas... eu já a conhecia há quase dois meses e não tinha tido a coragem de perguntar seu nome, e foi exatamente este item, juntamente com minha grande boca, que causou uma grande mudança no nosso relacionamento... lembro até hoje daquela sexta-feira, quando minha amiga fechou a porta de minha sala e falou muito sério comigo.

'Desembucha Cris! Quem é a pessoa que está na sua casa?', na realidade eu me assustei com esta pergunta, mas disfarcei a princípio 'Como assim?', 'Não se faça de sonsa e não vem com essa de que é uma gata... você mudou muito neste último mês, está na cara que você tem uma nova paixão e que não me contou... e ainda fica usando este artifício de fingir que está falando ou pensando em uma gata. Já deu, né?', disse jogando na minha cara o que eu já devia ter admito faz tempo. 'Mas... é uma gatinha, eu não menti... tá bom, é uma menina novinha, mas eu chamo ela de gatinha', respondi com alívio, podendo finalmente falar sobre isso com alguém.

'Eu sabia! Eu sabia! Pelo menos ainda te conheço bem, mas agora você terá que me contar em detalhes tudo sobre essa sua gatinha', disse enquanto se sentava na cadeira em frente a minha mesa, 'Mas eu já te contei que ela janta e dorme na minha casa e sai toda manhã... isso é verdade', respondi com naturalidade, para ouvir em seguida: 'Sim, mas quero detalhes amiga, quem é, como você conheceu, o que ela faz da vida, onde mora, tudo que for interessante' foi a resposta, animada. Eu lembro que hesitei muito antes de confessar a verdade: 'Eu... não sei nada sobre ela... nem mesmo o nome', para ouvir quase um grito de volta: 'O QUE????'.

Acho que meu lado racional precisava desabafar, pois na sequência eu contei tudo, tudo mesmo, de como a derrubei, como a levei pra casa, como a estava alimentando e protegendo, como dormia abraçada a noite, como nunca tínhamos trocado nem um beijo... e como não sabia absolutamente nada a respeito dela, nem mesmo o seu nome... deveria ter imaginado que ia ouvir exatamente o que ouvi ao terminar a narração:

'Cris, você está louca! Sério, qual é o seu problema?', 'Eu estou bem e feliz, isso não vale nada?' argumentei, sabendo que no fundo, ela tinha razão. 'Claro que vale, mas por que não pode saber mais sobre ela? Como você pode confiar em alguém que tem a chave do seu apartamento e dorme na sua casa e que nunca está com a carteira ou os documentos? E que não se apresenta? Não diz se trabalha ou estuda. Você enlouqueceu?' disse em um tom realmente preocupada, 'Não, eu estou feliz e só isso importa... eu vou continuar cuidando da gatinha... se você não entende isso, não posso fazer nada' foi minha resposta que hoje vejo, foi extremamente grosseira, já que ela estava simplesmente preocupada.

'Cris, tudo bem... vamos dizer que essa menina gosta de você e te faz bem... tudo bem, tem meu apoio, mas por favor, tente descobrir quem ela é, o que faz na vida, onde mora, com quem mora... e se ela for realmente uma pessoa legal, por que esconderia alguma coisa?' disse ainda preocupada, 'Tá bom, vou perguntar hoje mesmo estes detalhes' foi minha resposta racional, 'Ainda bem, Cris! Você realmente me assustou com esta!' foi a resposta com um suspiro. 'Obrigada pela preocupação, mas pode ficar tranquila... minha gatinha é uma pessoa única, que nunca me faria mal' respondi com um sorriso, 'Que bom, pois se ela quisesse te fazer mal, já teria feito...' foi o comentário inconformado que encerrou o assunto.

Naquele dia, voltei para casa pensando nas palavras da minha amiga e realmente estava decidida a questionar a gatinha sobre seu nome, o que ela fazia da vida, se ela queria continuar indo na minha casa e outras coisinhas... mas o resultado final foi bem diferente do que eu esperava...

Após chegar, não mudei em nada nossa rotina, tomei banho, jantamos, conversamos e fomos para a "Hora do carinho", o momento em que ela não poderia fugir das minhas perguntas incisivas. Eu havia ensaiado tantas vezes como ia falar, que até hoje não acredito no que aconteceu... pelo menos consigo relembrar em detalhes mais uma besteira, só mais uma, de tantas que fiz em relação a tudo isso.

Ela estava com o rosto no meu colo, me abraçando e recebendo seu carinho de sempre, quando tomei coragem e disse 'Gatinha, preciso te perguntar algo importante... mas por favor, não me entenda mal, tudo bem?', e com esta frase, ela levantou a cabeça e a deitou bem em cima dos meus seios, e com um lindo sorriso, respondeu 'O que a Doutora quer saber?', as perguntas estavam prontinhas desde o metrô, eu questionaria se ela queria continuar dormindo na minha casa, qual era o nome dela, onde ela morava e outras coisas... mas aquela droga de sorriso me fez hesitar, me enrolar e falar mais devagar do que deveria:

'Eu preciso saber se você... quer... se você quer dormir... se quiser é claro... se você quer... dormir...' tentava falar, quando ela me cortou quase gritando: 'Quero! Quero muito! Tinha vergonha de pedir, mas quero! Posso mesmo?', eu achei curioso tanta alegria para minha pergunta se ela queria continuar dormindo na minha casa, por isso respondi naturalmente: 'Claro que pode... pelo tempo que você quiser'. E após essa frase, ela se levantou e saiu correndo da sala, me chamando: 'Então vamos! Vamos fazer a hora do carinho lá! Vamos, Doutora!'

Eu demorei alguns segundos para compreender esta reação, mas quando a vi entrar correndo no meu quarto, tudo ficou claro. Ela entendeu que a minha pergunta era se queria dormir na minha cama, e quando pediu a confirmação, acabou ouvindo um "sim, pelo tempo que quisesse". Então, sem querer, a gatinha tinha recebido acesso ao último território da casa que era exclusivo meu... ela entrou e se alojou na minha cama, e agora era necessário explicar que não era bem isso e que ela deveria voltar ao sofá... mas como fazer isso sem a magoar?

Caminhei de forma melancólica até o quarto e entrei, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, ela disse, já deitada e embaixo da minha coberta: 'Deita Doutora, agora é hora da minha pergunta importante'. Não entendi bem, mas achei interessante a ideia, pois podíamos alternar as perguntas e assim, descobrirmos mais uma da outra. E foi com este pensamento, que me deitei apenas para ser agarrada no segundo seguinte.

'Calma, gatinha!' disse, sem conseguir me soltar, já que ela me abraçava com os braços e pernas, apertando seu corpo contra o meu com bastante força. 'Estou tão feliz, queria tanto vir pra sua cama! Não queria mais dormir sozinha, queria dormir abraçada com você!' disse ela, me soltando em seguida, 'Que lindinha, mas o que queria me perguntar?' questionei com um sorriso, que em seguida virou uma expressão de susto. Aquela menina "indefesa" me virou rapidamente de barriga para cima e deu um pulo, sentando-se bem no meu colo... em seguida deitou por cima de mim e quase colou a boca na minha orelha esquerda.

'Doutora, você quer ser minha dona?' disse, sussurrando direto no meu ouvido. O calor e o peso dela em cima do meu corpo, associado aquela voz delicada e gostosa, me deixaram estática, mas consegui responder: 'Como assim?', 'Eu quero saber, se a doutora quer que eu seja a gatinha dela... só dela... se a doutora quer ser minha dona' insistiu ela, com aquele sussurro. ' O que... acontece... se eu quiser?' respondi, quase gaguejando. 'Quero brincar com a minha dona... cheirar, lamber, tocar, beijar ela a noite toda... o dia todo... a gatinha quer brincar com a dona dela... será que a dona deixa?' continuou falando, me deixando mais mole e sem reação a cada palavra.

Nesta hora, mesmo com meu racional quase desaparecendo, a voz do maldito insistia em me lembrar de tudo que minha amiga havia falado, então... eu tinha que saber algo sobre ela, para essa maldita voz interior me deixar em paz... 'Meu nome é... Cristina.. não sei... o seu...' sussurrei sabendo que se ela não respondesse, não haveria força para questionar de novo. 'Luciana... Lucy para a minha dona' respondeu, aparentemente bem empolgada, já que ela começou a lamber minha orelha, descendo a língua rapidamente até o pescoço e subindo de volta para me olhar dentro dos olhos.

'Quer ser minha dona, Doutora?' perguntou bem baixinho, dando uma lambidinha de leve nos meus lábios. 'Quero... Lucy...' foi a última coisa que me lembro de falar, um instante antes dela colar seus lábios nos meus, com um fogo ardente e um apetite incontrolável.

E foi assim que aquele dia terminou... eu sabia o nome dela e isso me satisfez completamente, tanto que não perguntei mais nada... sobre ser sua dona, achei bonitinho e imaginei que era esta a posição na qual ela me via... E quanto as "brincadeiras" que ela havia citado... naquela noite, tive o sexo mais intenso e incrível que já havia tido na vida... ela realmente tocou, beijou, cheirou e lambeu cada centímetro do meu corpo... foi alucinante, sem chance de conseguir explicar... e só parou quando o dia amanheceu...

Por último, aquele sábado foi a primeira vez após quase dois meses, que quando acordei, quase uma da tarde, ela ainda estava no apartamento... aparentemente ao conquistar o ultimo território que lhe faltava, a minha (agora era oficial) gatinha não precisou sair de manhã, pois finalmente se sentiu em casa.


sábado, 8 de agosto de 2020

Minha Gatinha Lucy - Parte III - Confiança

Vários e vários dias se passaram nesta nova rotina, e minha gatinha (continuava pensando nela assim... ao menos em meu íntimo) estava cumprindo nosso acordo. Todo dia de manhã quando acordava, ela já havia saído, mas toda vez que retornava do trabalho, ela estava na calçada com uma roupa diferente me esperando. E a prova de quê ela havia almoçado era a diminuição daquele apetite exagerado na hora do jantar. Após os primeiros dias, ela também aparentava estar menos cansada, já que não dormia mais assim que se deitava, garantindo uma conversa bem gostosa sobre meu dia e algumas amenidades no geral.

Acredito que nosso... será que relacionamento seria a palavra? Nosso... alguma coisa, avançava... mas avançava para onde? Qual era o objetivo ou a finalidade de tudo isso que eu fazia por ela? Por que a protegia, alimentava e sentia um enorme prazer em ficar perto dela? Não havia qualquer precedente em minha vida que justificasse este comportamento irracional, pois sempre fui uma mulher séria em matéria de amor, sem nunca fugir do local comum... mas  também não havia nenhum interesse real de minha parte em não deixar, o que quer que fosse isso, de acontecer... com certeza para quem via de fora, isso tudo parecia loucura, mas... eu simplesmente não conseguia evitar...

Após mais duas semanas, subi outro degrau na escala da loucura, quando após voltar em um dia chuvoso, a vi me esperando e se protegendo com uma folha de jornal sujo e velho... esta cena fez meu coração sangrar e naquela noite mesmo, entreguei uma cópia da chave do meu apartamento, para ela entrar e sair toda vez que quisesse... até então não havia sido necessário quando ela só saía de manhã, pois ao abrir minha porta por dentro e deixar a tranca abaixada, a porta se fechava quando era encostada, e a porta que dava para a rua, podia ser aberta por dentro também.

Já fazia quase um mês que minha gatinha morava (mais ou menos) comigo... e o fato de eu nem saber seu nome, estranhamente não me incomodava... com certeza uma ajuda psiquiátrica profissional teria feito muito bem para a minha cabeça nesta época... e o próximo grande avanço nesta relação diferente... ocorreu após minha amiga do consultório me perguntar inocentemente: 'E a gata?', 'Hmm? Ah, vai bem... volta todo dia para jantar, dorme e sai de manhã', respondi com um sorriso.

'E ela já confia em você?', perguntou, 'Como assim?' questionei sem entender, 'Quando o gato confia no dono, ele se joga a seus pés, esfrega a cabeça nas suas pernas, pede carinho e dorme no seu colo... ela já faz isso?' explicou, 'Eu... não, não mesmo' respondi, enquanto corava, 'Deixa eu adivinhar, ela sempre fica em um sofá e você fica no outro' disse ela sorrindo, 'Sim, e daí?' perguntei, sem entender.

'Seus territórios estão muito bem definidos, então ela não vai invadir o seu, pois não sabe se pode... se você quer que ela confie em você, dê o primeiro passo, entrando bem devagar no território dela, sem forçar... algo como, sente na outra ponta do sofá onde ela fica... aí você vai ver a reação dela' explicou minha amiga, com toda a boa vontade, o que na realidade, fez eu refletir muito sobre esta conversa de confiança.

E naquele mesmo dia, eu acabei descobrindo o quanto minha (será mesmo?) gatinha confiava em mim, pois após o jantar, recolhi as coisas e aguardei ela se deitar em seu cantinho de sempre... em seguida, ao invés de me sentar no outro sofá, sentei-me na outra ponta do sofá dela, simplesmente para ver sua reação, que foi bem engraçada a princípio.

Quando ela me notou em seu sofá, virou a cabeça na minha direção com um olhar assustado e desconfiado que durou poucos segundos, pois retribui com um sorriso. Em seguida ela se sentou e ficou me olhando, talvez pensando no que fazer ou se deveria fazer alguma coisa. Mas ela só reagiu quando falei com todo o carinho possível: 'Estou muito feliz que você está aqui comigo, gatinha'. Neste momento, parece que desarmei sua última defesa, pois ela rapidamente atravessou a distância que nos separava engatinhando e parou com o rosto bem na frente do meu... e sorriu.

'O que foi?' perguntei, imaginando que ao menos, ela não tinha se incomodado com minha proximidade, 'Doutora... você... quer...' disse hesitando, ao mesmo tempo em que seu rosto corou, 'O que?' perguntei um pouco receosa, mas ela não respondeu, e fez algo realmente inesperado, deitando a cabeça no meu colo e me abraçando com força.

'Doutora... faz carinho na sua gatinha?' disse, ao mesmo tempo em que alisava a cabeça nas minhas coxas... sinceramente não sei se o que fez meu coração acelerar foi sentir a cabeça dela se alisando em mim ou foi o fato da frase conter o pronome possessivo "Sua", que casava completamente com meus devaneios ao citá-la como "Minha".

Acredito que esta era a confiança da qual minha amiga havia falado, pois quando comecei a alisar de forma graciosa a sua cabeça, ela sorriu com um prazer tão visível, que eu não consegui mais parar. E a medida que alisava seus cabelos loiros e macios, o rosto dela vinha subindo pelo meu corpo, já que depois das coxas, ela se alisou na minha barriga e peito, até chegar no meu pescoço, onde me tocou delicadamente com o nariz e a boca... neste ponto, eu nem sabia mais o que estava sentindo, mas me tranquilizei quando ela desceu um pouco e estacionou aquele belo rosto bem entre meus seios. E foi nesta posição que após mais alguns minutos de carinho, eu ouvi ela ressonar com toda a tranquilidade.

Então tive outra prova do quanto minha mente estava embotada nestes dias, já que minha felicidade de sentir esta confiança e carinho foi tanta, que demorei uns dez minutos para notar que havia ficado presa embaixo dela. E fiquei em conflito por outra meia hora, até decidir que não teria coragem de acorda-la, e que minha noite de sono, seria sentada com minha gatinha me abraçando. E a parte que me deixou mais abismada foi que mesmo nesta posição, ao contrário do que imaginei, ela acordou cedo e saiu sem se fazer notar, então quando acordei, estava sozinha de novo... ela era realmente sorrateira.

De qualquer forma, nossa rotina havia acabado de ganhar um novo item, pois ela deixou muito claro no dia seguinte, que não iria dormir antes da "Hora do carinho", o que me obrigava a se sentar ao seu lado e alisa-la enquanto se esfregava pelo meu corpo. Algumas vezes eu notava quando ela estava quase dormindo e conseguia empurrar a cabeça dela para o travesseiro, já em outras, não podia fugir de dormir sentada com ela no meu colo.

Mas ao pensar agora, posso afirmar que estava feliz por acreditar que nosso... relacionamento, talvez? Havia atingido seu ápice com aquele carinho gostoso e sem pretensões... mas como eu podia ser tão ingênua? Isso tudo era apenas o começo...



quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Minha Gatinha Lucy - Parte II - Alimento


Lembro-me que dormi muito pesado naquela noite de dezoito de abril, talvez o susto e a tensão pela possibilidade de ter machucado aquela garota, me deixaram bem cansada... mas mesmo assim, eu não esperava pelo que aconteceu em seguida. Devo ter acordado por volta das 09:00 hs e por nenhum motivo em especial, levantei rápido e fui até a sala para ver como estava a minha hóspede. E foi com uma sensação muito estranha de frustração, que descobri que ela não estava mais lá. A coberta e o roupão estavam dobrados perfeitamente bem, um em cima do outro... mas as roupas e ela haviam sumido... sem nem um tchau, sem olhar para trás, sem hesitação.

Fico com vergonha de admitir que minha primeira reação foi olhar a bolsa e conferir o celular, os cartões e outras coisas... e ao ter certeza que estava tudo absolutamente no mesmo local, paradoxalmente, minha frustração aumentou, pois se ela não havia me roubado e era honesta, por que teria ido embora? Talvez ela estivesse com raiva de mim, talvez não gostou que a comparei com uma gatinha... eu teria que conviver com esta dúvida, que não teria como ser respondida.

Aquele dia, sexta-feira, dezenove de abril, demorou para passar... eu acabei indo para o trabalho normalmente, fiquei calada a manhã toda, almocei e após voltar, Priscila, uma amiga do consultório não resistiu e me questionou. 'Cris, posso saber o que você tem? Parece que veio de um velório', disse ao entrar na minha sala, fechando a porta logo atrás. 'Nada, não tenho nada... por quê?' respondi, sem querer estender o assunto. 'Duvido, o que aconteceu esta noite?' insistiu ela, não me deixando muita escolha a não ser responder, obviamente omitindo a parte de que havia levado uma estranha que estava na rua para dormir na minha casa: 'Ah, essa noite... então... estava chovendo e eu trombei com uma... uma gata... joguei ela em uma poça de água sem querer... aí levei pra casa, sequei, dei comida e ela comeu muito... aí dormiu no meu sofá... e hoje de manhã...'.

Curiosamente eu hesitei a concluir a frase, pois me doeu lembrar disso... mas minha amiga não deixou por menos e completou 'Hoje de manhã ela tinha ido embora...'. 'Como sabe?', questionei surpresa. 'Gatos de rua adultos são assim, comem, dormem e vão... odeiam se sentir presos... você não sabe porque nunca pegou um gato adulto na rua' disse, me deixando realmente triste. 'Eu tinha uma gatinha quando era criança, mas minha mãe a pegou filhote, então não sei realmente' comentei, tentando encerrar o assunto. 'Mas se você a pegou ontem na rua, por que está tão triste?' perguntou ela, de forma certeira. 'Não sei, devo ser uma idiota' respondi, com toda a sinceridade.

Minha amiga me observava com um olhar estranho, mas após alguns segundos, ela falou uma coisa que me deixou estranhamente animada: 'Eu disse que eles vão, não disse que era pra sempre. Quando ela ficar com fome, com certeza vai voltar'. 'Você acha?' perguntei com um sorriso, 'Claro, pode ter certeza que ela vai aparecer na sua porta hoje mesmo' foi a resposta.

E o resto deste meu dia foi muito estranho, pois sem entender realmente o motivo, a possibilidade daquela moça voltar para comer algo na minha casa, me deixou animada. Vendo hoje, talvez se na minha vida houvessem mais amigos ou mesmo um namorado, minha cabeça não estaria ocupada com uma sensação ridícula e esdrúxula como estar feliz pela possibilidade de alimentar uma completa desconhecida.

Aquele dia demorado fatalmente terminou e eu segui para casa pelo mesmo itinerário, se lembrando da frase 'Quando ficar com fome, ela vai voltar', mas se esquecendo por alguns segundos, de que não se tratava de um gato, mas sim de uma pessoa. A noite avançava a cada minuto e após virar na esquina onde havia batido nela no dia anterior, uma sensação estranha preencheu meu peito... talvez eu imaginasse que ela estaria no mesmo local, o que se mostrou incorreto. Um tanto abatida, segui cabisbaixa em direção a meu apartamento e fui surpreendida, pois quando levantei a cabeça para atravessar a rua bem em frente a ele, lá estava aquela moça sentada na calçada.

Não acreditei e atravessei quase correndo, e quando cheguei bem na frente dela, deixei escapar um: 'Gatinha, digo, moça... tudo bem? Quero dizer, você foi embora... digo...'. Imagino o quão ridícula eu estava sendo, mas ela se levantou e com um grande sorriso, respondeu: 'Eu tinha um compromisso e não quis te acordar, Doutora... mas voltei aqui as 13:00 hs e estava esperando você voltar para te agradecer por tudo' . 'Não precisa agradecer, mas você está aqui sentada desde as 13:00 hs?' perguntei com incredulidade, 'Sim, eu tinha que te agradecer... agora eu já vou, tá?' respondeu ela, um pouco triste. 'Não, espera!' falei, lembrando da frase de minha amiga. 'Se você está aqui todo este tempo, não jantou... vamos entrar que você pode jantar comigo... eu sempre janto sozinha e é bom ter companhia'. 'Não vou te incomodar?' perguntou ela, levemente envergonhada. 'Claro que não, vamos lá ga..., digo, moça...' respondi, corando imediatamente.

Ela sorriu e me seguiu enquanto abria a porta que dava na rua... em seguida, entramos no meu cantinho. 'Fica a vontade, você já sabe onde está tudo' disse alegremente após fechar a porta. Ela não respondeu e se sentou novamente no mesmo sofá de ontem, como se esperasse pela minha próxima ordem.

'Vou tomar um banho rápido... quer uma toalha e um roupão igual ontem?' perguntei, imaginando que ela adoraria se banhar também. Com o aceno positivo da cabeça, fui até meu quarto e peguei as toalhas e roupas para nós duas e em seguida voltei ao banheiro. 'Vou tomar meu banho e deixo as coisas para você no banheiro, tudo bem? Aí enquanto você se lava, vou montando nosso jantar' disse, recebendo um novo aceno com a cabeça.

Meu banho foi realmente rápido, pois algo me impulsionava a voltar para perto daquela garota, que com certeza havia retornado para sua casa durante o dia, já que a roupa que ela usava era totalmente diferente da noite anterior. E após alguns minutos, me sequei com pressa e sai do banheiro para chamá-la: 'Moça, pode vir tomar seu banho'. Ela estava sentada no mesmo local em que a deixei, mas se levantou rápido e seguiu até o banheiro com um sorriso. E sem eu esperar, este foi o momento em que seu apelido foi oficialmente definido, quando ela parou bem na minha frente e disse: 'Doutora, me chama só de gatinha? Achei tão lindo'. Só consegui concordar com a cabeça, pois estava corada demais para falar qualquer coisa.

Preferi não pensar mais no assunto e rapidamente fui até a cozinha preparar nosso jantar, esquentando mais algumas porções de comida congelada e isso rendeu-me três novas preocupações... a primeira foi imaginar que teria que comprar coisa melhor para manter minha gatinha feliz e satisfeita... a segunda foi me perguntar por que estava preocupada em mantê-la feliz e satisfeita... e a terceira foi quando notei que havia acrescentando o pronome "minha" junto a "gatinha"... creio que minha cabeça decididamente não estava bem e a culpada, era uma moça cujo nome eu desconhecia e que no momento estava tomando banho em minha casa.

O banho dela novamente foi demorado, mas dessa vez quando saiu, ela não estava abatida, mas sim, radiante. E com a comida servida na mesa de jantar, eu a chamei com um sorriso 'O jantar está servido, gatinha'. E sorrindo de uma forma espontânea e gostosa, ela veio rapidamente até a mesa, sentou-se e começou a comer rápido e com uma fome bem aparente. Eu preferi não interrompê-la, mas naquela hora tudo ficou claro... tanto ontem como hoje, ela estava tendo sua primeira refeição do dia naquela hora.

Eu realmente comecei a me sentir muito mal com isso... como uma moça tão bem vestida, educada, bonita, poderia estar passando fome? Isso não fazia qualquer sentido, mas achei melhor não entrar em maiores detalhes naquela hora. Eu comi um pouco, mas curiosamente estava satisfeita apenas em ver ela se alimentar com tanto gosto. E ao final, ela olhou para mim com um jeito que parecia bem emocionada e disse: 'Obrigada, Doutora'.

O tom que ela usou bateu fundo no meu peito, mas preferi disfarçar meu sentimento: 'De nada, gatinha... fico feliz que você gostou'. 'Agora eu preciso me trocar de novo e ir embora, obrigada mesmo' ela disse, com uma ponta de tristeza. E aí veio a minha terceira decisão precipitada neste caso, com a frase: 'Não, pode dormir no sofá se quiser... para que sair a noite, fique a vontade'. O olhar feliz dela e o sorriso que se seguiu me fez engolir seco, quando ela perguntou: 'Não vou te incomodar?'. 'Claro que não, o sofá é todo seu' respondi, para no momento seguinte, ver ela se levantar alegremente e ir deitar no mesmo cantinho que tinha dormido na noite anterior.

Mas neste momento, algo me incomodou profundamente... na realidade, era a lembrança de acordar e não encontrá-la mais deitada no sofá. Era melhor deixar isso claro para evitar uma nova frustração... e com este pensamento andei até o sofá, me ajoelhei bem na frente dela e perguntei: ‘Você vai sair amanhã bem cedo de novo?', 'Sim, tenho compromisso' foi a resposta. 'Mas você vai voltar para jantar comigo? Vai voltar para dormir aqui?' perguntei, já que era a parte que realmente me interessava saber, 'Enquanto a Doutora não se incomodar, eu volto... se não quiser a minha volta, é só falar'.

'Deixa de ser boba, claro que pode voltar... volte todo dia para jantar e dormir aqui... vou adorar ter você por aqui' disse, com toda a sinceridade possível, 'Mas com uma condição' completei, enquanto se levantava e andava até minha bolsa. 'Qual?' perguntou ela, com um sorriso. Eu voltei rapidamente e tomei a quarta decisão precipitada (eu contei e me lembro de todas as decisões precipitadas) em relação a ela, quando disse: 'Você não deve ficar sem almoçar, pois faz mal pra saúde', ao mesmo tempo em que peguei a mão dela e coloquei uma nota de cem reais.

'Mas... Doutora... eu não posso...' tentava dizer ela gaguejando, mas que cortei rapidamente: 'Pode aceitar sim, é para você almoçar todo dia, e é um empréstimo, quando puder você me devolve... e quando acabar, me avisa que te dou mais... esta é a condição para você continuar vindo aqui, entendeu?'. Naquele momento, eu podia jurar que ela segurou uma lágrima em seus belos olhos, mas ao invés de chorar, ela me abraçou e disse: 'Combinado... vou anotar pra te devolver depois... obrigada, de coração'. 'De nada... gatinha' foi minha resposta, retribuindo o abraço.

E este dia terminaria logo em seguida para nós duas, pois o curto espaço de tempo que gastei recolhendo as coisas da mesa e levando para a cozinha, bastou para ela dormir... e ao retornar para a sala, já podia ouvir a minha gatinha (minha de novo) ressonando tranquilamente... E eu segui o ritual do dia anterior, quando peguei a coberta e rapidamente a deixei protegida e aquecida no sofá.

Mas dessa vez, quando olhei para ela, deitada e dormindo no sofá, meus pensamentos a respeito de toda esta situação foram um pouco diferentes em relação ao dia anterior, com perguntas como 'O que estou fazendo? O que está acontecendo comigo?'. E a impossibilidade de responder a estas questões, acabou me custando algumas horas de sono, que gastei pensando neste assunto. Ao mesmo tempo, estava muito feliz por saber que a gatinha estava alimentada, quentinha, protegida e voltaria no dia seguinte, no outro e no outro... e esta gostosa sensação com certeza estava ofuscando completamente o meu pensamento racional.

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Minha Gatinha Lucy - Uma História em 7 Partes (Introdução / Parte I - Abrigo)

Prezados,

A história a seguir tem "uma história" curiosa... ela é curta, envolve pessoas comuns, obedece as leis da física e fala sobre algo que normalmente me fascina... o relacionamento humano é tão cheio de nuances inacreditáveis, que milhões de coisas podem ser ditas a respeito dele.

Mas a parte curiosa da história, é que foi escrevi como um presente para um casal de amigas... sete pequenas partes enviadas por Whats App, uma parte por dia... e hoje foi a 5°...

Bom, pelo menos elas estão amando a história da "Gatinha Lucy"... e como já está pronto mesmo, vamos publicar por aqui... foi interessante escrever em primeira pessoa, espero que gostem...

Abs a todos

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Minha Gatinha Lucy - Introdução

Há pouco mais de um ano, minha vida era tão normal quanto eu poderei querer... conquistara após muito esforço, um satisfatório trabalho em uma renomada clínica de Dermatologia próximo a avenida Paulista (eu merecia este reconhecimento após estudar tanto), estava morando em um gostoso e simples apartamento em Moema (sobra do meu péssimo casamento), me sentia na flor da idade com apenas trinta e sete anos, mantinha meus longos cabelos castanhos muito bem cuidados e só se havia passado alguns dias desde o término de um namoro chato e monótono.

Ás vezes me pergunto, como teria me comportado se soubesse o que me esperava naquela noite chuvosa de dezoito de abril... se teria ficado até tarde no trabalho da mesma forma que fiquei ou se teria saído mais cedo, para evitar os eventos que seriam desencadeados por minhas próprias e involuntárias ações.

Na realidade, meu único desejo naquela época era sossego e um pouco de tempo para decidir meus próximos passos... mas por minha única e exclusiva culpa (com um empurrão bem sacana do destino) isso tudo mudou naquela noite... a longo prazo meu sossego acabaria, minhas prioridades mudariam, minha sanidade seria questionada, meu coração seria abalado e minha vida mudaria de rumo por completo.

Mas olhando em retrospecto, não posso me culpar... quem poderia imaginar que algo tão simples e inocente como "abrigar uma gatinha", poderia se transformar em algo tão complexo, diferente e até... inacreditável?

Por outro lado, as vezes imagino que teria me comportado da mesma forma... pois apesar de tudo, posso afirmar com toda certeza que a história toda foi única e estimulante... as vezes o pior é esta dualidade de sentimentos e sensações, pois não encontro um motivo aceitável que justifique a minha passividade em relação a uma situação que claramente estava destinada ao fracasso... ou talvez não estivesse... ah, sei lá...

Após refletir muito, decidi escrever este pequeno relato em sete partes com tudo o que lembro daqueles dias, de forma que eu seja forçada a repensar todos os detalhes... isso vai me permitir obter uma melhor perspectiva de tudo que perdi e ganhei, desde que a "Gatinha Lucy" entrou, literalmente e inesperadamente no meu caminho naquela distante noite chuvosa.


Minha Gatinha Lucy  - Parte I - Abrigo

Aquela quinta-feira, dezoito de abril, não parecia em nada diferente de qualquer outro dia, exceto que ao contrário da semana toda, o tempo fechou e uma forte chuva começou bem no meio da tarde.

Não me recordo com precisão se a vontade de ficar até mais tarde no trabalho foi desencadeada apenas pela chuva ou se a falta de motivação de voltar para meu tranquilo e solitário cantinho, também interferiu. Mas o que realmente importa é que ao invés de sair as 18:00 hs como sempre, saí depois das 21:00 hs, com a chuva mais forte do que nunca.

Meu trajeto era sempre o mesmo, pegava o metrô na estação Trianon- Masp até a Chácara Klabin, mudava de linha e seguia até a estação Eucaliptos, ao lado do Shopping Ibirapuera, onde após uma caminhada de cinco minutos, meu apartamento me aguardava.

E foi andando com pressa, e com o guarda-chuva aberto pela avenida Ibirapuera, que eu virei a esquerda e tentava não me molhar muito naquela noite, o que se provaria impossível considerando a quantidade de água que caía.

Cinco quadras depois, já estava quase correndo, quando virei a esquina de forma abrupta e dei de cara com ela. As minha única lembrança daquele instante foi uma forte trombada em alguém que estava parado quase na esquina... e isso acabou me desequilibrando e jogando esta pessoa em uma grande poça de água junto ao meio fio.

'Meu Deus, desculpa!' gritei, logo após me equilibrar, enquanto estendia a mão para ajudar a vítima de minha desatenção. E foi após olhar melhor, que vi uma mocinha que aparentava uns vinte e poucos anos, loira e de cabelos curtos, usando mini saia e blusinha preta, caída no asfalto, sem qualquer reação. 'Meu Deus! Será que ela bateu a cabeça?' foi meu primeiro pensamento, já ajoelhada enquanto tentava reanimar a garota.

'Moça, moça! Acorde por favor! Fala comigo!', eu pedia enquanto levantava a cabeça dela com cuidado, já não se importando mais com a chuva, que molhava nós duas de forma inclemente. Demorou quase um minuto para ela abrir os olhos e balbuciar 'O que... o que houve?', tendo como resposta um trêmulo 'Eu... eu... não te vi... desculpa... está doendo muito?'. A moça claramente estava confusa e suas palavras não fizeram muito sentido, o que me obrigou a tomar a primeira decisão precipitada de uma lista que ainda viria.

'Moça, eu sou médica e meu apartamento é ali na frente... vamos lá que eu seco suas roupas e dou uma olhada na sua cabeça' disse, sem obter uma resposta satisfatória ou entendível... de qualquer forma, meu movimento para ajudá-la a se levantar foi aceito e ela se apoiou no meu ombro, me seguindo até meu prédio. Não existia porteiro, então felizmente eu não precisava explicar nada, por isso apenas abri a porta que dava para a rua, subimos um lance de escadas e chegamos no meu cantinho, ambas ensopadas até os ossos.

Como não tinha muita escolha, eu a levei até o banheiro e a sentei na tampa do vaso, em seguida tirei minha calça e blusa rapidamente... apesar da calcinha e sutiã também estarem molhados, ficar com a roupa molhada e gelada colada ao corpo, era pedir por uma pneumonia. Logo após isso, olhei rapidamente a cabeça dela inteira e não achei qualquer lesão.

'Que sorte moça, não machucou sua cabeça... não entendi por que você desmaiou' disse, sem receber uma resposta direta. Ela ainda balbuciava coisas estranhas, mas parecia saber o que tinha acontecido. 'Olha, tira suas roupas e toma um banho quente... eu vou te dar um roupão enquanto coloco tudo isso na secadora... entendeu?' insisti, para finalmente ter uma resposta 'Tá...'.

Me senti muito aliviada após esta resposta, pois não gostaria de ter que chamar uma ambulância ou a polícia para explicar como a machuquei sem querer. E como ela estava claramente confusa, a ajudei a tirar toda a roupa e entrar no box, aproveitando para procurar lesões em seu corpo causadas pela queda, o que felizmente não haviam.

Depois de levar toda a roupa ensopada para a secadora, fui até meu quarto, peguei uma toalha, tirei minha lingerie, me enxuguei como pude e coloquei um roupão... em seguida, levei outra toalha e roupão para a moça no meu banheiro.

'Moça, aqui estão uma toalha e um roupão... você acha que consegue se enxugar e se vestir sozinha?' perguntei, entrando no banheiro. Um aceno com a cabeça foi a única resposta, por isso, coloquei tudo em cima do vaso e saí para aguarda-la na sala.

O banho dela demorou mais do que eu esperava, mas como não ouvi nenhuma queda, mesmo mantendo meu ouvido atento, não fui inconveniente a ponto de questionar o motivo da demora. E após uns vinte minutos, ela saiu de roupão, com o semblante abatido e os olhos distantes.

'Moça, desculpe o que eu fiz, juro que não te vi' disse, esperando uma aceitação do meu pedido de desculpas, algo que não aconteceu. Ela simplesmente caminhou até o sofá e se sentou sem falar nada, o que começou a me deixar preocupada, me obrigando a pegar minha bolsa com instrumentos para examina-la. Felizmente minha primeira tentativa, que foi medir sua pressão, me indicou o motivo de seu abatimento.

'Moça, sua pressão está em 9x6... você comeu algo nas últimas horas?' perguntei, torcendo pela resposta ser negativa, o que explicaria tudo. 'Não', foi a única palavra articulada. 'Então, você está com hipoglicemia... aliada ao susto e a queda, foram o motivo do desmaio... você precisa comer alguma coisa, peraí' falei, indo correndo para a cozinha, onde peguei uma das minhas intragáveis refeições congeladas, coloquei no microondas e após cinco minutos, retirei e levei pra ela.

'Come, que você vai melhorar', disse, entregando a marmitinha. 'Esqueci o garfo, que cabeça a minha', falei ao se levantar e voltar para cozinha no segundo seguinte... qual foi meu susto quando voltei e vi aquela delicada e frágil mocinha, com a cara enfiada dentro da marmita, engolindo de forma selvagem o conteúdo, mal tendo tempo de mastigar. E após alguns segundos, ela levantou a cabeça e com os olhos brilhando e um grande sorriso, perguntou 'Tem mais?'.

Eu tentei, juro que tentei não demonstrar minha surpresa para não deixá-la constrangida... e com um sorriso amarelo e forçado, respondi 'Claro, só te dei este pouquinho para ver se você gostava... vou pegar uma porção maior'. O grande sorriso dela seguido de um 'Obrigada', cortou meu coração, apesar de eu tentar não demonstrar isso também.

Após voltar para a cozinha, coloquei mais três porções no microondas e liguei... em seguida, discretamente fui até a secadora, olhar com mais atenção as roupas daquela moça. Não havia carteira, bolsa ou chaves com ela, mas pelas etiquetas de cada peça, eu confirmei o que a aparência, o cabelo e os brincos me indicaram...  aquelas eram roupas caras e de marca... essa garota tinha um alto padrão de vida, mas surpreendentemente, estava comendo aquela porcaria descongelada igual a uma mendiga esfomeada.

Tentei não pensar nisso quando retornei para a cozinha, então peguei as três marmitinhas e despejei em um prato, que levei com garfo desta vez. E sinceramente, esperava que ela o usasse para comer, o que felizmente aconteceu, apesar de ser com uma avidez e velocidade incompatíveis com o sabor e qualidade daquela coisa que servi.

Preferi não interrompê-la, mas ao final de sua salutar refeição, ela me devolveu o prato com um profundo e sincero suspiro de satisfação. 'Tudo bem, moça?' perguntei incrédula, para ouvir um 'Agora sim... eu estava com muita fome'. E foi no instante seguinte que o apelido, aquele apelido que me perseguiria por tanto tempo, nasceu. Ela limpou a boca com a parte de cima da mão direita e ao notar um pouco de molho um pouco antes do dedão, começou a lambê-lo delicadamente.

Eu soltei uma risadinha bem espontânea, o que fez ela olhar para mim desconfiada. 'Desculpa, é que lambendo a mão desse jeito, você pareceu uma gatinha que eu tinha e fazia isso após comer... achei tão bonitinho...' disse, sem nem imaginar tudo que esta frase desencadearia no futuro. Ela não respondeu, então eu não sabia se a tinha ofendido... mas eu não pensei muito nisso, pois no instante seguinte, ela se encostou no sofá e se espreguiçou demoradamente.

Como que voltando a realidade, peguei novamente minha mala e fui medir seus sinais vitais. 'Temperatura normal, pulmão limpo, pressão 11x9, ótimo... deixa eu ver sua cabeça melhor... nada. Dá seu pulso...' pedi. Em seguida segurei o braço para medir a pulsação ao mesmo tempo em que vi alguns calos bem estranhos em sua mão. 'Que calos esquisitos, você trabalha com o quê?' perguntei com uma simples curiosidade. 'Com nada importante' foi a resposta, enquanto ela tirava a mão e olhava com desconfiança de novo.

Percebi que havia sido invasiva e tentei mudar de assunto. 'Bom, você se lembra do que aconteceu?', 'Não, lembro de estar parada e depois você dizendo que era médica e que iria me ajudar' foi a resposta. 'Sim, eu não te vi e batemos porque eu corria da chuva... aí você caiu e desmaiou, e eu te trouxe aqui em casa para te examinar e secar suas roupas', 'Obrigada, doutora' foi a resposta, juntamente com um bocejo. 'Não foi nada', disse com um sorriso, e concluí enquanto saía: 'Vou ver como estão suas roupas'.

Após alguns minutos, confirmei que suas roupas estavam secas, então as dobrei, e levei alegremente para a minha convidada. E com uma grande surpresa, vi quando cheguei na sala, que ela estava encolhida no sofá, dormindo despreocupadamente.

Aquilo era inacreditável, como ela podia relaxar a ponto de dormir na casa de uma estranha? Eu parecia tão confiável assim ou ela que era inconsequente? De qualquer forma, por algum motivo misterioso, não consegui acordá-la, então deixei as roupas dobradas no outro sofá, fui até meu quarto, peguei uma coberta, voltei e a cobri, deixando-a protegida e aquecida. O irônico era que este comportamento também era igual ao da minha gatinha, que logo após comer, dormia... e sem nem entender direito o porque, tomei minha segunda decisão precipitada, abrigando na minha casa, naquela noite, uma moça jovem, bonita, desconhecida, aparentemente educada e bem de vida, mas ao mesmo tempo, muito faminta.

Hoje percebo que o simples fato de eu não tê-la machucado, já havia me deixado aliviada o suficiente por aquela noite... ela dormiria bem e amanhã cedo, eu me desculparia devidamente. E logo após tomar um banho e um copo de leite, era minha vez de ir pra cama, o que não me impediu de dar uma última olhada na minha hóspede, que continuava ressonando tranquilamente.

'Durma bem, gatinha' foi meu último comentário em um sussurro, no momento em que apaguei a luz e segui com muito sono para o meu quarto.